As pessoas lidam com a convivência por meio de administrações locais e conselhos municipais, forças de segurança, sistema judicial, centros comunitários do ACNUR, unidades móveis, ONGs, organizações da sociedade civil, grupos comunitários e estruturas informais familiares, tribais ou religiosas. A função prática de cada um varia conforme a província, a situação de segurança, a documentação, o financiamento e a autoridade que controla a área. A Síria não dispõe de um serviço de bairro uniforme em todo o país, de um procedimento de mediação comunitária nem de acesso garantido a uma solução local. O longo conflito, a transição política desde 2024 e o deslocamento em grande escala continuam afetando as relações cotidianas. Desde dezembro de 2024, cerca de 1,6 milhão de refugiados e 1,9 milhão de pessoas deslocadas internamente retornaram, enquanto cerca de 5,5 milhões de pessoas continuam deslocadas internamente. As áreas de retorno enfrentam pressão sobre serviços, moradia, trabalho, proteção e coesão social. É comum que as pessoas retornem para junto de familiares ou amigos, e a pressão sobre alojamentos e serviços compartilhados pode contribuir para disputas entre quem retorna e as comunidades anfitriãs. A circulação em espaços públicos varia muito conforme o local e o grupo. Na avaliação disponível, cerca de 94% das pessoas que retornaram e 82% das comunidades anfitriãs relataram poder circular livremente, enquanto insegurança, medo de sequestro, artefatos explosivos, atores armados, falta de documentos de identidade, barreiras sociais e discriminação restringiam o acesso de outras pessoas. Mulheres e meninas apontaram frequentemente preocupações com a segurança, e 16% relataram assédio ou intimidação. No primeiro trimestre de 2026, incidentes com artefatos explosivos afetaram 452 pessoas e causaram 153 mortes e 299 ferimentos; 72% dos incidentes ocorreram em áreas agrícolas ou de pastagem. Esses riscos também podem restringir o acesso a escolas, serviços e locais onde as crianças brincam. A diversidade cultural, religiosa, étnica e regional é reconhecida formalmente, mas a inclusão na prática continua limitada. Mulheres, jovens, pessoas idosas, pessoas com deficiência, minorias, pessoas deslocadas internamente e pessoas que retornaram muitas vezes precisam ser incluídas deliberadamente em consultas e decisões locais. Tensões sectárias e regionais localizadas, inclusive as que afetam comunidades alauítas em áreas costeiras e as relações entre beduínos e drusos em As-Sweida e Daraa, tornam especialmente importante garantir acesso imparcial e representação confiável. As pessoas recorrem a vários meios para resolver disputas. Em uma avaliação, familiares ou parentes foram o primeiro canal em 29% dos problemas comunitários relatados, seguidos pelas forças de segurança, com 19%; pelo sistema judicial e por lideranças comunitárias ou tribais, com 16% cada; por anciãos, com 6%; lideranças religiosas, com 3%; e vizinhos, com 1%. A resolução de disputas baseada na comunidade não tem força legal uniforme: o resultado depende do interlocutor, da área e do reconhecimento ou da aplicação pelas autoridades formais. Já existem comissões de justiça transicional e de pessoas desaparecidas, mas o acesso à busca da verdade, à reparação, à reconciliação e à restituição de moradias, terras e propriedades continua limitado. Documentação, assistência jurídica, mediação comunitária e encaminhamento às forças de segurança ou aos tribunais podem formar um caminho prático, embora insegurança, custos, falta de confiança e representação desigual possam impedi-lo. As administrações locais, os conselhos municipais e as plataformas participativas podem envolver as comunidades na definição de prioridades compartilhadas. Modelos apoiados pelo PNUD em Kadi Askar, em Aleppo, e na Cidade Velha de Hama incluíram mulheres, jovens, pessoas idosas, pessoas com deficiência e pessoas deslocadas internamente em conversas sobre recuperação liderada pela comunidade. O espaço cívico formal e a proteção de associações, assembleias, jornalistas e organizações da sociedade civil continuam desiguais; por isso, a participação pode ser mais segura ou eficaz por meio de uma plataforma local confiável, um centro comunitário ou uma equipe móvel. Centros comunitários e unidades móveis do ACNUR, voluntários que fazem trabalho comunitário e serviços de ONGs ou organizações da sociedade civil podem oferecer encaminhamentos, apoio jurídico e para obtenção de documentos civis, apoio psicossocial e em saúde mental, serviços relacionados à violência baseada em gênero e proteção infantil. No primeiro trimestre de 2026, 45% das pessoas avaliadas haviam acessado serviços humanitários e 55% não. Entre quem acessou serviços, os canais informados foram ONGs internacionais e locais, com 38%; grupos comunitários, com 36%; a ONU, com 15%; e órgãos governamentais, com 11%. A indisponibilidade de serviços, a falta de informação ou de prestadores, a distância, a insegurança, problemas com documentos de identidade, barreiras de gênero e discriminação afetam o acesso. O engajamento cívico também ocorre em espaços voltados aos jovens, diálogos comunitários e canais de redes sociais. O UNICEF informou que 221.587 jovens participaram de mais de 400 iniciativas cívicas e que 5,2 milhões de pessoas foram alcançadas por meio de diálogos comunitários em 2025. Quarenta e quatro espaços para jovens alcançaram aproximadamente 380.000 pessoas de 10 a 24 anos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Canais digitais podem ajudar a compartilhar informações sobre retorno e a conectar comunidades, mas infraestrutura danificada, polarização, desinformação e discurso de ódio criam riscos, e não foi estabelecido um sistema nacional sírio de resolução de disputas ou moderação on-line. Não há um regime nacional uniforme de tarifas ou prazos para serviços de mediação comunitária ou convivência; a disponibilidade e o acompanhamento dependem da autoridade local, da segurança, da documentação e do financiamento.
Convivência cotidiana na Síria
A convivência cotidiana na Síria é moldada pelas condições de segurança, pelo deslocamento e pelo retorno, pelo acesso a serviços, pela documentação, pela autoridade local e pela confiança entre comunidades. Não existe um sistema nacional único que administre as relações de vizinhança, a mediação ou a participação cívica; instituições formais, organizações de ajuda, grupos comunitários e lideranças familiares, tribais ou religiosas costumam desempenhar funções diferentes. A Declaração Constitucional de 13 de março de 2025 reconhece liberdades, especificidades culturais e direitos de propriedade, mas a proteção e a aplicação dessas garantias continuam desiguais.
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