A capacidade jurídica privada começa, em geral, com o nascimento com vida e termina com a morte. A plena capacidade jurídica começa aos 18 anos para uma pessoa com capacidade mental que não esteja sujeita a interdiction, uma restrição decretada pelo tribunal. Menores e adultos sob proteção legal podem estar sujeitos a tutelle, curatelle ou representação legal. O état civil, isto é, o sistema de registo de estado civil, regista nascimentos e óbitos ou emite prova legalmente aceite. Os contratos e obrigações são regulados sobretudo pelo Code des Obligations et des Contrats, ao abrigo da Ordonnance 89-126 de 14 de setembro de 1989. Um contrato forma-se normalmente quando as partes acordam os seus termos essenciais. Numa venda, a propriedade passa geralmente por esse acordo. O incumprimento ou atraso pode levar à execução forçada, resolução judicial do contrato ou indemnização. A indemnização pode cobrir o prejuízo direto e o lucro cessante. O prazo geral de prescrição das obrigações pode chegar a 15 anos; uma ação judicial, interpelação formal ou ato cautelar ou de execução pode interromper o prazo. Nas questões transfronteiriças, o estado pessoal e a nacionalidade, a residência comum das partes ou o local de celebração do contrato e o local do ato prejudicial podem afetar a lei aplicável. A propriedade fundiária rege-se pela Ordonnance 83-127 de 5 de junho de 1983. A propriedade privada é reconhecida; os terrenos do Estado normalmente exigem uma concessão prévia e aproveitamento antes de a propriedade definitiva poder ser transferida. Construir ou cultivar terrenos do Estado sem concessão não cria por si só propriedade; o Estado pode retirar a ocupação ou regularizá-la. O sistema fundiário formal inclui Permis d’Occuper, cessão definitiva, titre foncier, immatriculation, mutation, morcellement e registo de hipoteca. A Direction des Domaines, a Conservation Foncière e a administração financeira tratam de etapas diferentes. Uma contestação fundiária tem geralmente um prazo de um mês a contar da notificação formal, seguido de um prazo de dois meses para apresentar provas; o procedimento indicado não prevê recurso, e a cassação não suspende a execução. A expropriação por utilidade pública exige indemnização. Um procedimento de hipoteca demora aproximadamente 10 dias e implica selo de 50 MRU, 3.2% do montante hipotecado e taxa de bordereau de 16 MRU. Um Permis d’Occuper também demora aproximadamente 10 dias e tem selo de 50 MRU; o prazo da cessão definitiva varia e o seu selo é de 20 MRU. As questões familiares são reguladas sobretudo pelo Code du Statut Personnel ao abrigo da Loi 2001-052. O casamento é um contrato oficial que exige dois cônjuges, consentimento, wali, o tutor muçulmano do sexo masculino legalmente reconhecido segundo a ordem aplicável, duas testemunhas elegíveis e um SADAQ, a oferta de casamento acordada. A capacidade para casar começa aos 18 anos. O consentimento da própria mulher adulta continua a ser obrigatório. A ata de casamento é lavrada perante um officier ou agente d’état civil e deve ser registada em três meses. Um casamento registado tardiamente ou de forma irregular pode exigir uma decisão judicial como prova. Os contratos de casamento podem incluir condições sobre outro casamento, ausência excessiva ou restrições ao estudo ou trabalho; o incumprimento pode fundamentar dissolução judicial e compensação mout3a. O divórcio é judicial. O marido pode iniciar o repúdio unilateral perante um juiz ou Mouslih acreditado, após convocar a esposa e tentar a reconciliação. A mulher pode pedir o divórcio por dano, ausência, falta de sustento ou outros fundamentos reconhecidos. O sustento, o período de espera após o divórcio e os cuidados dos filhos são consequências separadas. A adoção não tem efeito jurídico neste quadro, enquanto a filiação legalmente estabelecida afeta o sustento, a herança e os impedimentos matrimoniais. A sucessão rege-se pelo Livro IV do Code du Statut Personnel, através de testamentos e sucessão legal. Os principais métodos sucessórios são FARDH, quotas fixas, TA3SIB, sucessão residual, ou uma combinação de ambos. As quotas dependem dos grupos familiares legalmente definidos e das posições codificadas dos herdeiros homens e mulheres. Para efeitos patrimoniais, uma pessoa desaparecida continua legalmente viva até o tribunal declarar a morte. Num desaparecimento excecional, a declaração de morte pode ocorrer um ano após o fim das investigações; os outros casos seguem um prazo judicial. A sucessão permanece sob supervisão judicial. O tribunal pode ordenar selagem ou depósito dos bens e nomear um liquidateur para preparar o inventário, verificar créditos e dívidas e gerir transações autorizadas. Em geral, os herdeiros não podem administrar a herança, cobrar créditos ou pagar dívidas antes da liquidação. Os bens hereditários podem ser vendidos em hasta pública ou por acordo, ao abrigo da autorização aplicável. A responsabilidade contratual pode resultar de incumprimento ou atraso mesmo sem má-fé. A responsabilidade extracontratual pode aplicar-se quando uma pessoa é responsável por uma coisa sob a sua vigilância e essa coisa causa diretamente um dano. Uma pessoa pode afastar a responsabilidade em casos reconhecidos, como acidente, força maior, culpa da vítima ou prova dos cuidados exigidos. O proprietário ou responsável pela manutenção pode responder pelo desabamento de um edifício. A ação é apresentada ao Tribunal competente; a prova do dano e do nexo causal entre a conduta e o prejuízo é essencial. O processo civil é regulado pelo Code de procédure civile, commerciale et administrative, geralmente designado CPCC. A estrutura judicial inclui a Cour suprême, Cours d’appel, Tribunaux de Wilaya e Tribunaux de Moughataa. Os processos civis começam geralmente num Tribunal de Moughataa ou numa secção civil de uma capital de Wilaya, com procedimentos especiais em Nouakchott. A Cour suprême analisa sobretudo questões jurídicas por via de cassação. O processo é apresentado no greffe, o registo do tribunal, com um endereço para notificações no distrito judicial, documentos comprovativos e lista de provas. O juge de la mise en état coordena a notificação, prazos, questões preliminares, provas e tentativas de conciliação ou mediação. O recurso de uma decisão de primeira instância deve, em geral, ser apresentado através do greffe no prazo de 15 dias. Os processos civis comuns podem implicar selos, custas de serviço jurídico, outras despesas e, quando exigido, um depósito; em geral, o próprio processo no portal do estatuto pessoal é gratuito. Está disponível mediação judicial e convencional. O juge de la mise en état pode incentivar conciliação ou mediação, e um Mouslih é um conciliador local acreditado. A Direction des Affaires Civiles et du Sceau trata da acreditação, que é gratuita, com atualizações anuais das listas e um prazo de análise e aprovação. Um acordo celebrado fora do tribunal pode ser confirmado por um Tribunal. O Estado não cobra taxa pela aprovação, registo ou execução de um acordo de mediação. A mediação antes da ação pode reduzir as custas em 25%; um acordo pode dar lugar ao reembolso de 100% das custas de primeira instância, 75% das custas de recurso ou 50% das custas de cassação. A assistência judiciária é gratuita para um requerente sem meios cujo pedido pareça ter fundamento prima facie. O requerimento é apresentado no Bureau competente a nível regional e normalmente inclui identificação, residência, prova de pobreza ou situação no registo social, descrição do litígio e documentos de apoio. Refugiados e requerentes de asilo podem precisar de documentos adicionais de residência ou proteção. O tratamento demora cerca de 15 dias e não mais de um mês. O portal limita-se ao requerente e não abrange o réu. Ao abrigo da Loi 16/2020, é obrigatório constituir advogado perante a Cour d’appel, a Cour suprême, os tribunais comerciais, as secções administrativas e determinados órgãos de arbitragem ou mediação. Noutros tribunais civis, é possível representar-se a si próprio; um cônjuge ou filho pode representar a parte mediante procuração. Os notários são autorizados pela Direction des Affaires Civiles et du Sceau; a autorização é gratuita e exige aprovação do presidente, sem prazo fixo de processamento. A execução exige título executivo e crédito vencido, líquido e certo. A sentença definitiva é executada mediante requerimento ao presidente do tribunal que decidiu o processo, acompanhado da grosse, a cópia certificada com força executiva. Um huissier atua no distrito judicial pertinente; se não houver um disponível, pode ser nomeado ad hoc um greffier ou agente administrativo. As medidas disponíveis incluem saisie conservatoire, apreensão cautelar, saisie-arrêt, penhora de crédito na posse de terceiros, e saisie-exécution sobre bens móveis ou imóveis. Após uma interpelação formal para pagamento, o devedor dispõe normalmente de oito dias para pagar antes da penhora. Ferramentas profissionais necessárias, uma cama, vestuário e utensílios de cozinha estão entre os bens protegidos. Em geral, os órgãos do Estado estão excluídos da penhora ordinária, e as decisões financeiras são dirigidas ao Ministério das Finanças. A contrainte par corps, prisão por dívidas ao abrigo dos artigos 421–439, foi abolida pela Loi 2020-032. Uma sentença estrangeira exige exequatur, reconhecimento judicial pelo presidente de um Tribunal de Wilaya, antes da execução ao abrigo da lei mauritana.
Direito civil na Mauritânia
Na Mauritânia, o direito civil regula relações jurídicas privadas entre pessoas, famílias, empresas e bens, incluindo contratos, heranças, responsabilidade e litígios civis. As regras estão distribuídas pelo Code des Obligations et des Contrats, pelo Code du Statut Personnel, pela legislação fundiária e pelo Code de procédure civile, commerciale et administrative, em vez de reunidas num único código civil. Os tribunais, serviços de estado civil, autoridades fundiárias, conciliadores Mouslih acreditados e oficiais de execução tratam de matérias diferentes; a entidade competente depende, por isso, da questão.
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